A nostalgia percorreu um longo caminho. Em nítido contraste com a forma como era historicamente concebida, a saber, uma doença mortal a ser tratada em âmbito médico, hoje em dia a nostalgia é mais vista como uma forma inofensiva de autoindulgência ou, alternativamente, como um recurso para o bem-estar e construção de significado. Para citar apenas um exemplo, em um livro recente de um conhecido expoente da nova nostalgia, lemos como ela pode nos beneficiar na formação de uma autoestima saudável, na ampliação da identidade, na conexão com os outros e na construção de um futuro melhor. Embora a transformação da nostalgia seja complexa, abrangendo diversas disciplinas ao longo de diferentes gerações, não há dúvida de que a pesquisa em psicologia empírica, sem falar na nostalgia relacionada à Covid-19, é parcialmente responsável pela reinvenção da nostalgia em nossa época.
Essa reinvenção da nostalgia como forma de terapia de autoajuda se estende a temas relacionados à morte e ao luto. Além de supostamente amenizar as ansiedades ligadas à morte, a nostalgia também é vista como um recurso para indivíduos que passam por um luto. A nostalgia consegue isso, segundo o argumento, supostamente atuando “como um mecanismo corretivo para aliviar o impacto negativo de eventos adversos”, de modo que “a nostalgia desempenha uma função restauradora, ajudando os indivíduos que a experimentam a restabelecer a homeostase psicológica após o sofrimento”.
Ainda que esse projeto seja atraente, muito do que se fez na pesquisa sobre nostalgia dentro da psicologia concebe essa emoção de forma restrita e reducionista. Em particular, ideias contemporâneas de nostalgia frequentemente enquadram o passado como se fosse um arquivo de memórias que passivamente esperam sua lembrança, pressupõe que a identidade pessoal é contínua e auto-idêntica. Elas concebem a nostalgia como um recurso passível de ser mobilizado antecipadamente em resposta a incertezas futuras, desconsideram o papel que os processos inconscientes desempenham na geração da nostalgia e ignoram a dissonância afetiva entre o passado e o presente, que é fundamental para a nostalgia (cf. Routledge 2016).
Além disso, quase nada se encontra sobre as variações da nostalgia, tais como suas manifestações patológicas, ou a nostalgia concebida como um processo de duração prolongada, em vez de um episódio de curta duração. Pior ainda, ao longo desta pesquisa, a ambiguidade afetiva da nostalgia foi desprovida de sua complexidade, com um foco predominante no papel que a nostalgia pode desempenhar na geração de prazer, em vez de reconhecer como ela pode levar ao sofrimento.
O resultado é que a nostalgia é privada tanto de sua riqueza quanto de sua importância histórica. Afinal, etimologicamente, o termo “nostalgia” deriva de “nostos”, que significa “retorno à pátria”, combinado com “algos”, que significa sofrimento ou dor, como escreve Johannes Hofer, o criador do termo: “a dor pela perda do encanto da terra natal” (Hofer 1934, 380). No entanto, nas pesquisas contemporâneas sobre nostalgia, o luto está praticamente ausente.
Embora o luto seja geralmente ausente nos estudos atuais sobre nostalgia, as pesquisas contemporâneas sobre o luto, especialmente no âmbito da fenomenologia, demonstram uma atenção mais perspicaz às questões da nostalgia e da memória. Pensadores como Matthew Ratcliffe, Allan Køster, Thomas Fuchs e Line Ryberg Ingerslev apontam para o papel que o passado e a nostalgia desempenham na experiência do luto.
Nesse campo de pesquisa, o luto é entendido como possuindo uma estrutura intencional complexa, irredutível a um estado afetivo de curto prazo e, em vez disso, concebido como um processo de duração prolongada, com uma ampla variedade de expressões e durações. O luto também é concebido em termos corporais como um tipo específico de pressão sentida no corpo, que se manifesta como momentos episódicos de dor aguda quando a perda é enfrentada e que, fora desses momentos, se difunde pelo corpo como uma sensação de falta.
Pesquisas atuais também ressaltam como a experiência corporificada do luto revela a imbricação entre o eu e o outro. Visto dessa forma, o corpo é o veículo de expressão desse entrelaçamento entre o eu e o outro num mundo que é coletivamente constituído, apontando para uma história compartilhada que não é mais acessível. Essa história, todavia, é inscrita no mundo circundante, de modo que o mundo familiar, e talvez também aconchegante, outrora habitado torna-se alienante e vazio depois da morte de alguém que amamos.
Um dos temas recorrentes na literatura sobre o luto é que a experiência da perda nem sempre resulta na experiência de uma ausência absoluta, mas, na verdade, ele estabelece o espaço para o passado se apresentar como presença ambígua.
O termo “presença ambígua” se refere ao conhecimento do fato de que alguém que amávamos morreu, mas todavia é ainda presente para o sujeito em luto como se ainda estivesse aqui.
Dessa forma, a presença de quem perdemos marca um conflito afetivo e epistêmico, de modo que há uma dissonância entre o que alguém entende racionalmente como verdade – isto é, a morte de um ente querido – e aquilo que, apesar de tudo, continua a ser sentido de forma igualmente persuasiva – isto é, a presença da pessoa é sentida como se ela ainda estivesse viva.
A literatura sobre o luto é marcada com tais assombrações espectrais. Considere aqui o conjunto incisivo de reflexões de Denise Riley sobre a morte de seu filho. O que marca essa escrita é uma convicção conjunta de saber mas não acreditar que seu filho faleceu baseada numa percepção de o tempo não mais passar: “Saber e não saber que ele está morto. Ou ‘saber’ mas em âmbito privado não conseguir sentir isso… percebo pela metade enquanto duvido pela metade, aceitando, mas questionando, admitindo ao mesmo tempo em que considero a ideia ridiculamente implausível” (Riley 2019, 107).
Há várias maneiras de refletirmos sobre esse dilema entre saber e não saber. Poderíamos, em primeiro lugar, pensar nessa tensão em termos de uma “ilusão”. Mas, ao fazê-lo, correríamos o risco de ignorar as formas pelas quais os fantasmas e as presenças nos permitem manter uma relação significativa com um passado que não está mais acessível. O mesmo se aplica, sem dúvida, à nostalgia. Na nostalgia, os fantasmas também desempenham um papel fundamental, não apenas no sentido de nos conectar a mundos que não estão mais ao nosso alcance, mas também em termos de constituir uma atmosfera de familiaridade em um mundo não familiar.
Visto dessa forma, tanto o sujeito nostálgico quanto o sujeito em luto habitam simultaneamente modos divergentes de afeto, temporalidade, espacialidade e identidade. Para cada um deles, viver no presente significa habitar uma zona do tempo que é moldada pelo passado e que, de fato, só ganha sentido com o recurso ao passado. Outra maneira de pensar esse estado é em termos de duplicação de mundos. Em seu trabalho seminal sobre o tema, Svetlana Boym observa que:
Uma imagem cinematográfica da nostalgia é uma dupla exposição, ou uma sobreposição de duas imagens — do lar e do exterior, do passado e do presente, do sonho e da vida cotidiana. No momento em que tentamos forçá-la a se encaixar em uma única imagem, ela rompe o quadro ou queima a superfície (Boym 2001, xiii-xiv).
Boym chama nossa atenção para a duplicidade que está no cerne do anseio nostálgico. Se a nostalgia envolve uma “busca por um lar que não existe mais ou que nunca existiu”, então tal anseio serve menos para unificar mundos díspares e mais para gerar uma duplicação desses mundos. A referência de Boym a uma “dupla exposição” atesta, assim, a diferença inerente à nostalgia. Como uma dupla exposição, a nostalgia implica uma estrutura conjunta, na qual a irrecuperabilidade e o aspecto sentido do passado como se já “não mais existisse ou nunca tivesse existido” é compreendido do ponto de vista de um sujeito que ainda vive. Não estar mais presente não significa, todavia, estabelecer uma concessão à expiração do passado, mas sim ressaltar como a persistência do passado é articulada nos termos do que o sujeito sente de diferente.
Como o luto, o sujeito nostálgico forja um mundo que é estruturado pela divisão temporal, que resulta em uma separação parcial do tempo comum. O tempo comum – que é o tempo compartilhado pelo mundo social – nunca é dissolvido na fantasia nostálgica; na verdade ele assume uma presença tácita, por vezes se aproximando da saudade e, outras vezes, ficando em segundo plano.
Por causa dessa mescla confusa de temporalidades divergentes, o brilho familiar de algo passado é contrabalançado pela co-temporalidade de um presente a partir do qual o passado é concebido. Por sua vez, essa distorção temporal motiva um tipo de afetividade ambiente, a qual é marcada por um clima de prolongamento temporal e fadiga. O tempo, como afirma Denise Riley, se torna um platô. E o passado, como tal, se desdobra no presente saturando o horizonte da percepção com a tonalidade de uma experiência outrora vivida mas nunca compreendida.
Tanto na nostalgia quanto no luto, o mundo pode nos parecer estranho, hostil e desprovido do sentido que antes tinha.
Embora possa parecer óbvio que o luto envolva uma fragmentação fundamental do mundo, expressar a nostalgia da mesma forma, por outro lado, parece, à primeira vista, contraintuitivo. No entanto, eu diria que essa reação é sintomática da banalização da nostalgia, promovida em grande parte por estudos da psicologia empírica. Longe de ser simplesmente “benéfica” para o processo de luto, como defendem as pesquisas psicológicas contemporâneas, eu diria, ao contrário, que a nostalgia deve ser entendida como uma modalidade do luto, que não se resume a uma saudade de coisas específicas, mas está, na verdade, ligada à perda do mundo (familiar) ao qual essas coisas pertencem.
Referências
Boym, Svetlana. 2001. The Future of Nostalgia. New York: Basic Books.
Hofer, Johannes. 1934 ([1688]). “Medical dissertation on nostalgia or homesickness.” Bulletin of the Institute of the History of Medicine 2: 376–391.
Reid, C. A., Green, J. D., Short, S. D., Willis, K. D., Moloney, J. M., Collison, E. A., Gramling, S. (2020). “The past as a resource for the bereaved: nostalgia predicts declines in distress.” Cognition and Emotion, 35(2), 256–268. https://doi.org/10.1080/02699931.2020.1825339
Reily, Denise. Say Something Back and Time Lived, Without its Flow. London: Picador
Routledge, Clay. 2016. Nostalgia: a Psychological Resource. London: Routledge.
Routledge, Clay. 2023 Past Forward: How Nostalgia Can Help You Live a More Meaningful Life. Colorado: Sounds True Publishing.

O texto original (“Nostalgia and Grief”) foi publicado em The Memory Palace em 10 de junho de 2025.
Tradução: Nathália de Ávila é doutora em Filosofia pela Universidade de Colônia (Alemanha), sob a orientação de Sven Bernecker e Joel Krueger. Seu doutorado concentrou-se na relação entre memória, emoções e psicopatologia a partir do framework enativista. Atualmente, sua pesquisa investiga o que ocorre com os pilares da cognição 4E quando suas condições são alteradas, com foco em temas como o exílio — enquanto experiência de ruptura da relação entre indivíduo e ambiente — e experiências de quase morte, nas quais indivíduos relatam memórias imersivas associadas a experiências de distanciamento do próprio corpo. A tradução foi revisada por César Schirmer.
