Outro dia, eu estava no carro com meus filhos quando eles viram um de seus professores da escola caminhando pela calçada. Para mim, não tinha nada de especial na situação, mas para eles foi uma grande fonte de divertimento – a visão era tão familiar, porém tão estranha: o Sr. Cope, visto fora de seu habitat natural! A simples ideia de que professores pudessem ter uma existência fora da escola parecia exótica.
O psicólogo George Mandler descreve uma ocorrência um tanto similar em seu artigo de 1980 intitulado “Recognizing: The Judgement of Previous Occurrence” (“Reconhecer: O Juízo de Ocorrência Prévia”):
Imagine ver um homem no ônibus que você tem certeza de já ter visto antes; você ‘conhece’ ele, nesse sentido. Tal reconhecimento geralmente é seguido por um processo de busca que, basicamente, pergunta: De onde eu poderia conhecê-lo? Quem é ele? O processo de busca gera contextos prováveis (Eu o conheço do trabalho; ele é um astro de cinema, um comentador de TV, o leiteiro?). Eventualmente, a busca pode se encerrar com o insight: É o açougueiro do supermercado! (Mandler, 1980, p. 252 e seguintes)
Tornou-se comum referir-se ao exemplo de Mandler como “o açougueiro no ônibus”. (A expressão sempre me lembra um pouco o título de um filme de terror de baixo orçamento.) É um exemplo-chave na literatura psicológica da memória, onde ainda é amplamente citado.
Chegarei a uma das principais ideias que Mandler visou ilustrar por meio da história ao final desse texto. Primeiro, no entanto, aqui está uma razão pela qual eu gosto do exemplo do açougueiro no ônibus, independentemente do que fazemos com ele:
Sem dúvida, a história de Mandler não teria sido tão influente se não tivesse ressoado em outros pesquisadores, os quais reconhecem a experiência descrita por ela. Assim, ela pode ser vista como parte de uma tradição de escritos psicológicos sobre a memória, e fenômenos correlatos, que põem em evidência questões sobre a fenomenologia. Endel Tulving, outra figura proeminente dessa tradição, chegou a descrever a experiência subjetiva do lembrar como “o objeto último de interesse” nos estudos da memória (Tulving, 1983, p. 184).
Tendo dito isto, o fato de que é tão fácil se conectar à experiência descrita por Mandler também traz o perigo de nos conduzir para a direção errada. Ou, ao menos, é isso que eu penso.
Pois parece existir uma tentação perene na teorização sobre a memória de tratar as memórias elas mesmas como coisas com as quais nos deparamos, tal como nos deparamos com o açougueiro no ônibus.
Assim, o exemplo de Mandler é frequentemente visto como uma ilustração paradigmática da ideia de um “sentimento de familiaridade”. Essa mesma expressão, contudo, também é às vezes utilizada para descrever o que é tomado como sendo um ingrediente-chave da capacidade de lembrar o passado, ou o que é comumente referido como memória episódica.
Grosso modo, a visão da memória episódica que tenho em mente é mais ou menos a seguinte. Quando alguém se lembra de um evento passado, isto envolve a combinação de duas coisas: (1) se a pessoa tem, ante a própria mente, uma imagem de um certo tipo, e (2) também se a pessoa tem um certo sentimento que acompanha aquela imagem, e é em virtude desse sentimento que se toma a imagem como representando um evento que se experienciou no passado. Como às vezes se diz, o sentimento age como um “indicador de memória” ou um “marcador fenomenológico” de que se lembra.
Uma versão influente da visão, que apela especificamente à ideia de “sentimento de familiaridade” nesse contexto, foi proposta por Bertrand Russell. Mas também existem exemplos mais recentes. Eu ofereci algumas razões para ser cético em relação a essa proposta em outro lugar. Elas também emergem, penso eu, quando olhamos com mais cuidado para o açougueiro no ônibus.
Como, exatamente, deveríamos descrever a experiência envolvida em ver o açougueiro no ônibus? O que eu quero sugerir é que, ao examinarmos mais de perto, há diferentes sentimentos plausíveis em jogo no exemplo, aos quais o rótulo de “sentimento de familiaridade” pode ser aplicado. Uma vez que cada um deles seja claramente soletrado, no entanto, não parece que nenhum deles parece ser um bom candidato para o tipo de papel visado por Russell e outros que têm usado o termo para descrever um suposto ingrediente da memória episódica.
(1) Um aspecto da experiência de ver o açougueiro no ônibus que a descrição de Mandler traz à tona, particularmente bem, é a maneira característica com que ela captura nossa atenção. Possivelmente, um fator responsável por isso também está presente no exemplo com o qual eu comecei, o de meus filhos avistando o seu professor andando por aí na cidade. O que torna ambas as experiências muito salientes é a incongruência entre o item e o contexto em que ele é encontrado. Isso faz com que a pessoa avistada se sobressaia como familiar (de uma maneira na qual isso não é normalmente o caso), pois ela é encontrada fora de contexto.
(2) Não havia dúvidas de que meus filhos sabiam onde tinham visto antes a pessoa que avistaram do carro – era o Sr. Cope, que eles viam nas aulas da escola. O exemplo de Mandler é diferente nesse aspecto, o que lhe adiciona uma segunda camada fenomenológica. Como aponta Mandler, o avistamento do açougueiro no ônibus inicia uma série de tentativas para descobrir quem ele é. O sentimento – e isso pode ser bem enlouquecedor – é um de ter a informação na ponta dos dedos, mas ser incapaz de acessá-la, semelhante ao que ocorre no fenômeno ponta-da-língua.
(3) Ao lado desses dois primeiros ingredientes, é plausível que haja também um sentimento de reconhecimento menos proeminente, de “nível-base”, envolvido na experiência de ver o açougueiro no ônibus. De fato, pode-se pensar que é isto o que dispara os outros dois ingredientes. Enquanto há uma quantidade considerável de disputa sobre os detalhes, uma linha de pesquisa promissora tem associado a ideia de tal sentimento à fluência com que cada informação – aqui, a experiência visual de ver o açougueiro – é processada e aos mecanismos que monitoram essa fluência.
Assim, a experiência descrita por Mandler abarca uma complexa combinação de fatores, podendo haver muito mais do que os que mencionei. Ainda assim, não devemos perder de vista o ponto básico que Mandler queria que o exemplo ilustrasse: ele usa-o para demonstrar que existe uma diferença clara entre, por um lado, a familiaridade, tal como ilustrada nesse exemplo, e, por outro lado, a recordação (recollection). De fato, a ideia de uma tal diferença levou a todo um programa de pesquisa completo sobre teorias do processamento duplo do reconhecimento.
Para nossos propósitos, o principal ponto é o seguinte:
A fenomenologia em questão, no exemplo do açougueiro no ônibus, está associada precisamente à falha em evocar uma memória episódica de onde a pessoa avistada no ônibus foi vista antes. Como tal, parece que ela não nos fornece um modelo no qual a memória episódica também possa ser entendida.
Em uma discussão recente sobre a ideia de um sentimento de familiaridade, Amy Kind também reforça sua natureza “multicamada e multidimensional” e diz que “ele pode se originar de diferentes fatores todos ao mesmo tempo”. A partir disso, ela conclui que as teorias existentes sobre a memória episódica que invocam essa ideia “podem estar trabalhando em um nível fenomenológico muito grosseiro”. Como ela continua afirmando, no entanto,
Se nós fôssemos capazes de separar as diferentes camadas e dimensões do sentimento de familiaridade, é possível que nós pudéssemos atingir uma camada que é proprietária da memória. (Kind, 2022, p. 9)
Isso sugere uma forma de explicar o fracasso, pelo menos desde Hume em diante, de tentativas de encontrar um “marcador fenomenológico” da memória. Kind aponta para os limites das nossas faculdades expressivas: se pudéssemos encontrar um grão fino o suficiente com o qual descrever as diferentes facetas do sentimento de familiaridade, poderíamos ser capazes de encontrar aquela que seria relevante para a memória episódica.
A hipótese alternativa, mais pessimista, é a de que todo o projeto de procurar um “marcador fenomenológico” da memória, concebido desta maneira, se baseia em um erro. Essa hipótese tem como premissa uma imagem da relação que temos com nossas próprias memórias, que é tentadora e, ainda assim, profundamente enganadora – que nós nos deparamos com elas de maneira similar a como nos encontramos com o açougueiro no ônibus ou com o Sr. Cope enquanto ele anda pela calçada.

O texto original (“The Butcher on the Bus”) foi publicado em The Memory Palace em 5 de novembro de 2024.
Tradução: Gabriel Zaccaro é doutorando em cotutela no Laboratório de Filosofia da Memória da UFSM (MemLab), na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), sob a orientação de Cesar Schirmer, e no Centre for Philosophy of Memory (CPM) na Université Grenoble Alpes (UGA), sob a orientação de Denis Perrin. Seu trabalho foca na memória autobiográfica, em sua relação com outros tipos de memória e nas características fenomenológicas de seus processos de evocação. A tradução foi revisada por Cesar Schirmer e Martin Kolberg, em colaboração do MemLab.

