Lembrar Quando
Gerardo Viera (University of Sheffield), traduzido por Gabriel Zaccaro
Eu tenho uma lembrança particularmente estranha (vamos considerá-la uma lembrança). Não há muitos detalhes nela. Há uma imagem de algumas formas e linhas flutuando em uma superfície branca (pense em um desenho abstrato que você encontraria no início dos anos 90).

Além dessas características visuais, há também uma sensação peculiar de calma. É basicamente isso. Mas há mais dois componentes que me dão razões para pensar que isto é uma memória. É que ela se impõe a mim tanto como incrivelmente familiar quanto como se apresentando como algo do meu passado distante.
Nem todas as minhas memórias são tão estranhas como esta. A maioria é bastante comum. Tenho uma memória infantil borrada de me atrapalhar para colocar a luva quando quase peguei uma bola fora em um jogo dos Yankees. Eu claramente me lembro da minha primeira entrega da Sainsbury’s enquanto estava em quarentena depois de me mudar para o Reino Unido. Também tenho a nítida memória de ver a minha parceira em meio à multidão quando nos conhecemos pela primeira vez.
Embora essas memórias tenham níveis variados de detalhes e digam respeito a assuntos diferentes, todas elas compartilham duas características com aquela minha memória estranha. Todas elas se impõem a mim como familiares e como apresentando algo do meu passado. No entanto, mesmo aqui existem diferenças. Cada uma dessas memórias localiza os eventos em diferentes distâncias no passado. Algumas parecem mais antigas do que outras.
Às vezes, as memórias só localizam eventos no tempo na mais vaga das maneiras (p. ex., em algum momento no passado), enquanto outras memórias podem nem mesmo localizar esses eventos no tempo (veja o trabalho recente de Alexandria Boyle). Nesses casos, talvez eu tenha de me esforçar um pouco e me envolver em um trabalho reflexivo de detetive para descobrir quando algum evento ocorreu.
No entanto, nos casos que acabei de descrever, eu tenho o que parece ser um senso automático de quão longe o evento ocorreu no passado. Posso até me surpreender com esse senso. Minha memória da entrega da Sainsbury’s me parece incrivelmente antiga, e acho surpreendente quando me lembro de que isso aconteceu há apenas quatro anos. A memória parece ser de uma época longínqua, mas eu sei que não é.
É nesse senso de passado que quero focar. De onde ele vem? O que explica como algumas memórias se impõem a nós dessa forma?
Talvez esse senso de passado seja o resultado de algo que acontece quando as memórias são formadas. Talvez as memórias recebam um carimbo temporal quando são formadas e isso fundamente nosso senso de passado. Embora essa explicação possa ser bacana, ela tem suas limitações.
Como nem todas as memórias têm um senso de passado, teríamos que explicar por que algumas memórias estão carimbadas temporalmente e outras não. Algumas memórias também parecem estar mais precisamente localizadas no tempo do que outras. Por que isso aconteceria? Por fim, por que algumas memórias nos parecem ser muito mais antigas (ou mais recentes) do que realmente são?
Alguns tentaram explicar o sentimento de passado por algumas características não temporais do lembrar. Uma proposta desse tipo é encontrada no trabalho recente de Denis Perrin, Kourken Michaelian e André Sant’Anna. Eles tentaram explicar o senso passado através de “sentimentos epistêmicos” – sentimentos relacionados ao nosso conhecimento de fatos e eventos.
Para essas abordagens, o senso de passado está fundamentado nos sentimentos de familiaridade, fluência e conhecimento que geralmente acompanham o lembrar. Contudo, embora esses sentimentos epistêmicos possam rastrear um senso geral de passado, já que qualquer coisa com a qual eu esteja familiarizado deve ser do meu passado, eles parecem ser incapazes de explicar o senso de distância no passado que varia entre as memórias.
Considere apenas a familiaridade. Minha memória estranha, a memória de conhecer minha parceira e a memória de quase pegar uma bola fora me são todas muito familiares. Porém, cada uma dessas memórias parece estar localizada em momentos muito diferentes do meu passado. É esse fato sobre a distância no passado que a familiaridade por si só não consegue explicar, e o meu palpite é que os sentimentos epistêmicos em geral também não conseguem.
Algo a mais deve estar acontecendo aqui. Talvez o senso de passado se deva a uma característica temporal produzida no momento da lembrança em vez de no momento da formação. Entretanto, não há nada específico sobre os aspectos visuais da minha memória estranha que a coloquem tão longe no passado. Os meros componentes imagísticos da memória (p. ex., o que vemos e ouvimos com os olhos da mente) não explicam isso.
Talvez, em vez disso, haja alguma forma de inferência operando que nos leve além da mera imageria do evento lembrado.
Mas se há uma inferência, então como explicamos que nosso senso de passado e a distância temporal nas memórias estejam frequentemente em desacordo com as conclusões de inferências explícitas que fazemos sobre a localização temporal dos eventos lembrados? Como é que minha memória da entrega da Sainsbury’s me parece muito mais antiga do que eu julgo que ela seja após alguma reflexão? E por que esse sentimento de passado não desaparece assim que o juízo é feito?
Aqui é onde acho que progresso pode ser feito se observarmos como o tempo é representado em outra de nossas faculdades psicológicas: a percepção.
Embora cientistas e filósofos tenham discutido a percepção temporal por séculos, apenas recentemente começamos a apreciar a complexidade dessa capacidade de registrar o tempo. Há uma vasta literatura sobre as complexidades da percepção temporal, mas aqui vamos nos concentrar em um aspecto – a percepção de ordem temporal (muito desse material foi tratado em um artigo que escrevi com Kris Goffin).
Muitas vezes percebemos os eventos como estando em relações de ordem temporal – por exemplo, relações de anterioridade, posterioridade e simultaneidade. Uma explicação simples para como percebemos os eventos como estando nestas relações apela para a sequência temporal da estimulação ou do processamento.
Quando experiencio um relâmpago ocorrer antes de um trovão, a luz chega à retina e é inicialmente processada antes que as ondas mecânicas do trovão cheguem ao tímpano. O relâmpago cruza a linha de chegada perceptual primeiro e, portanto, percebemos que ele ocorre primeiro. Contudo, a ordem temporal da estimulação sensorial parece ser apenas um fator na percepção de ordem temporal.
Considere o que acontece quando você vê e sente algo tocar o seu pé. Geralmente essas situações são experienciadas simultaneamente, porém, os sinais táteis levam muito mais tempo para percorrer o corpo até o cérebro do que os sinais visuais. Ou considere também o que acontece quando você assiste a um filme em que as trilhas de áudio e de vídeo estão ligeiramente fora de sincronia. Desde que o atraso não seja muito significativo e o filme não seja dublado, tendemos a nos acostumar com o atraso e, depois de pouco tempo, nem percebemos a assincronia.
O que está acontecendo aqui? Bem, parece que os nossos sistemas perceptuais estão envolvidos em uma inferência causal complexa.
Em ambos os casos, os sistemas perceptuais concluem que a diversidade de sinais sensoriais recebidos provavelmente se deve a uma causa comum e, portanto, percebemos esses eventos como sendo simultâneos.
Da mesma forma, quando temos pistas para perceber um evento como causando outro, essas pistas causais nos influenciam a perceber a causa como ocorrendo antes do efeito, mesmo que sua ordem temporal seja invertida.
Contudo, é importante ressaltar que, embora as pistas causais possam influenciar a percepção temporal, nossos sistemas perceptuais ainda tratam as relações causais e temporais como sendo distintas. De fato, há uma série de estudos interessantes que mostram que indivíduos podem ser induzidos a experimentar ilusões em que os efeitos parecem ocorrer antes de suas causas (consulte Stetson e colegas).
Assim, o que está acontecendo aqui, então? Os nossos sistemas perceptuais usam pistas causais, junto com uma série de outras pistas, para fazer inferências complexas sobre o tempo.
A ideia que estou sugerindo é que o nosso senso de passado na memória se deve a um processo de inferência semelhante. Usamos uma série de pistas, incluindo sentimentos epistêmicos, princípios de raciocínio causal e fatos relativos aos eventos específicos que estão sendo lembrados para representar, por inferência, a passadidade de nossas memórias.
Mas agora voltamos à nossa preocupação anterior. Se é uma inferência, então como explicamos como nossa experiência temporal pode contradizer o nosso raciocínio informado? Essa é uma característica-chave do processamento perceptual. Nossas inferências perceptivas são “encapsuladas”, ou isoladas, de grande parte do nosso pensamento. Considere a clássica ilusão de Müller-Lyer:
As duas linhas parecem ter comprimentos diferentes. A ilusão persiste mesmo quando se sabe que as duas linhas têm o mesmo comprimento. Nosso processamento perceptual é “modular” dessa maneira. E, assim, estou sugerindo aqui que a memória envolve um processo inferencial complexo que localiza eventos e memórias no tempo.
Dessa forma, embora se pense que a lembrança seja uma forma de pensamento, ela partilha algo em comum com a percepção: esses processos inferenciais são encapsulados e estão escondidos da introspecção. Esses processos estão escondidos de nossas capacidades introspectivas e somente seu resultado (o senso de passado) se mostra a nós.

O texto original (“Remembering When”) foi publicado em The Memory Palace em 24 de setembro de 2024.
Tradução: Gabriel Zaccaro é doutorando em cotutela no Laboratório de Filosofia da Memória da UFSM (MemLab), na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), sob a orientação de Cesar Schirmer, e no Centre for Philosophy of Memory (CPM) na Université Grenoble Alpes (UGA), sob a orientação de Denis Perrin. Seu trabalho foca na memória autobiográfica, em sua relação com outros tipos de memória e nas características fenomenológicas de seus processos de evocação. A tradução foi revisada por Cesar Schirmer e Martin Kolberg em sessões de trabalho do MemLab.

